O Espírito Santo em Jesus: Mestre espiritual no caminho da Quaresma

O Espírito Santo em Jesus: MESTRE ESPIRITUAL NO CAMINHO DA QUARESMA

No caminho quaresmal viemos do deserto ao Calvário, e a partir deste lugar de consumação do coração de Cristo para os homens, passamos para essa consumação carismática que é a missão e tarefa para a vida da Igreja.

— Atualidades pastorais —

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Autor
Ivano Liguori, ofm. Boné.

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No primeiro domingo da Quaresma a perícope evangélica das tentações de Jesus no deserto é tradicionalmente lida.

Os três evangelhos sinóticos, incluindo o mais conciso Marco, eles concordam em sublinhar uma coisa importante: Jesus é empurrado para o deserto pelo Espírito, ser tentado pelo diabo. Esta história representa um momento forte que qualifica a identidade de Jesus, desde que Ele, cheio do Espírito Santo, inaugurará em breve o ano jubilar de graça (cf.. LC 4,18-19), enquanto Suas obras trarão as boas novas que libertam e curam os pobres que aguardam ansiosamente o Reino de Deus. Mas não pode haver um ano de graça - não há verdadeiro jubileu - sem a firme resolução de pôr fim ao reinado de Satanás e às suas obras. Em Jesus Cristo esta promessa é cumprida (cf.. LC 10,18), é no seu Batismo no Jordão que começa a vitória sobre o mal, que terá um momento inicial de combate na batalha do deserto e culminará no Gólgota naquela hora marcada (cf.. LC 4,13) qual é Cairo de salvação para cada homem.

Como já mencionado, o quadro narrativo também determina a chave interpretativa daquela passagem de tentações. Acontece depois do batismo no Jordão, no momento da teofania do Pai, através da qual Ele reconhece solenemente o Filho, o Messias e o profeta cheios do fogo do Espírito Santo. Não é ousado exegeticamente ver aqui uma passagem de bastão entre João Batista – ele é o profeta ardente (cf.. MT 11,14; 17,12; Senhor 48,1)– e Jesus, aquele que possui a plenitude do fogo do Espírito Santo. Este Espírito derramado sobre Cristo permanecerá permanentemente sobre Ele e, como recordam os Evangelhos, três vezes durante a sua vida terrena consagrou a sua vida e o seu ministério público.

A primeira vez no ventre da Virgem Maria, primeiro altar no qual Jesus é ungido pelo Espírito Santo (cf.. MT 1,20); a segunda unção é justamente aquela no rio Jordão; o terceiro acontecerá na cruz, onde Cristo, ao morrer, ele dá o Espírito Santo ao mundo (cf.. GV 19,30). E esse último suspiro será um prelúdio à efusão do Espírito Santo que ele comunicará aos apóstolos no Domingo de Páscoa. (cf.. GV 20,21-22).

Focando na segunda unção ou consagração pneumatológica de Jesus no Jordão, notamos como Ele, nessa circunstância, une toda a raça humana em solidariedade, cuja natureza compartilha, as alegrias, esperanças e sofrimentos. No abraço do Espírito Santo com Jesus revela-se a sua profunda identidade, então, através dos sacramentos, será comunicada pela Igreja aos homens e que a teologia paulina assim expressa na carta aos Gálatas: «Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que chora: Aba, Pai!» (Garota 4,6). Um determinado Espírito, assim, reconhecer o Pai e Seu Filho Jesus, Nosso Senhor e Salvador, que também realiza a ação de conduzir os homens a Jesus, para que se unam a Ele na imersão pascal de morte e ressurreição.

No batismo no Jordão Jesus se solidariza conosco para que todos sejamos apresentados ao Pai como filhos no Filho, embora ainda nos reconheçamos como necessitados de conversão e – o que é mais importante – de todos, através da humanidade de Jesus, recebemos aquela unção do Espírito Santo que nos permite enfrentar as tentações do maligno e vencê-las, que representa, para os cristãos, o primeiro passo importante no caminho batismal, na conversão e na livre escolha.

Na verdade, o Espírito Santo no deserto coloca a humanidade de Cristo diante do mal para que possa combatê-lo e escolher na liberdade do Filho permanecer na obediência ao Pai. Da mesma forma o Espírito Santo age em nós, revelando-nos o escândalo do mistério da iniquidade que só pode ser superado permanecendo na obediência a Deus, enraizado em sua única palavra: «está escrito, foi dito" (cf.. LC 4,4. 8.12). Não há mais tempo para o homem, como aconteceu com os primeiros pais no Éden, de se esconder por causa do pecado ou da devastação impressionante que ele causa na vida de alguém, mas através do Espírito ele é chamado a agir, para segurar a espada (cf.. Ef 6,17) e travar guerra contra o maligno que já foi rejeitado na humanidade de Cristo.

A Quaresma se torna assim, ano para ano, uma jornada de consciência espiritual cada vez maior e diferente. Um caminho de escuta do mestre interior – o Espírito Santo – que encoraja o homem a “ver”, poderíamos realmente dizer, experimentá-lo: "Vamos.", veja as obras do Senhor" (cf.. Vontade 46, 9). E quais são as obras que o Espírito Santo, como Senhor, levar a cabo? São as mesmas obras que vemos acontecer na vida terrena de Jesus e que ele propõe a quem pretende segui-lo: veneração e contemplação do Pai, aniquilação de si mesmo e doação de si aos homens.

A Quaresma presta-se a esta tripla dinâmica de modo a, sob a cuidadosa orientação do Espírito Santo, não há mais espaço para emoções desordenadas ou revelações apocalípticas, pois tudo leva a uma conformação da vida à de Cristo, que só o Espírito é capaz de operar plenamente no homem. Vamos ver como isso acontece, através de três movimentos.

O primeiro movimento corresponde a um movimento ascendente, o que significa fixar o olhar não na própria miséria de pecador, mas levante os olhos para Deus que é o Pai. Isto nos permite contemplar Sua obra redentora em Seu Filho Jesus: «Esta é a obra de Deus: acredite naquele que ele enviou " (cf.. GV 6, 29). O centro da existência, o que dá sentido e esperança firme ao caminho muitas vezes difícil da vida do homem é a fé em Jesus, o encontro com Cristo. Não se trata de seguir uma ideia, um projeto, mas encontrar Jesus como Pessoa viva, deixar-se envolver totalmente Nele e no seu Evangelho. Por isso Jesus nos convida a não nos determos num nível puramente humano, mas abrir-se ao horizonte de Deus, o da fé. Ele exige este trabalho: aceite o plano de Deus, isto é, "acredite naquele que ele enviou" (cf. Bento XVI, Ângelus, Castelo Gandolfo, 5 agosto 2012).

O segundo movimento é um movimento abismal, coincide com a realidade da cruz. É carregar aquele jugo que nos torna pequenos, que diariamente redimensiona o nosso eu e nos permite renunciar ao domínio sobre o irmão e sobre as coisas, evitando a obsessão egoísta da posse, colocando-se a serviço, ou preferindo aqueles que não têm possibilidade de retribuir (cf.. LC 14,13-14).

O terceiro movimento é um movimento horizontal, coincide com aquele "até o fim" de GV 13,1, que Jesus realiza pela primeira vez no Cenáculo com os apóstolos, mas então ele percebe isso completamente para todos no Calvário. Ali Jesus se doa plenamente aos homens. Assim como o Espírito Santo o empurrou para o deserto, quase por necessidade de poupança, agora Ele o faz subir a íngreme encosta do Calvário onde acontecerá o último, luta definitiva e necessária contra o maligno; enquanto isso ele propõe seu messianismo alternativo que contradiz o plano do Pai: «Você que destrói o templo e o reconstrói em três dias, salve-se! Se você é o Filho de Deus, desça da cruz!» (cf.. MT 27,40); «As pessoas estavam assistindo, os líderes zombaram dele dizendo: “Ele salvou outros, salvar-se, se ele é o Cristo de Deus, seu escolhido". Até os soldados zombaram dele, e eles se aproximaram dele para lhe oferecer um pouco de vinagre, e eles disseram: “Se você é o rei dos judeus, salve-se" (cf.. LC 23,35-37). Este movimento horizontal não tem um significado primordialmente filantrópico ou solidário como se poderia entender apressadamente, mas é um pedido claro para consumar o coração pelo outro. É o cumprimento definitivo que chega até ao perdão dos inimigos. A tentação demoníaca não pode chegar lá, aí existe apenas e somente a obra do Espírito Santo que transforma as profundezas do homem até a consumação para o outro, assim como Cristo fez. O Está terminado de Cristo é o início de toda operação carismática do cristão e da Igreja; por isso o amor encontra a sua fonte na terceira pessoa da Trindade que passa a residir permanentemente na criatura (cf.. RM 8,9).

Para concluir, no caminho quaresmal viemos do deserto ao Calvário, e a partir deste lugar de consumação do coração de Cristo para os homens, passamos para essa consumação carismática que é a missão e tarefa para a vida da Igreja. Sublinhando esses três movimentos acima, lembre-se, para qual homem, seguindo a Cristo, tenta se conformar por vocação, traçamos um caminho espiritual e um caminho missionário, de anúncio, de autenticidade cristã e batismal, para aqueles que receberam a efusão do Espírito Santo e vivem a vida cristã sob o sinal de Pentecostes. Isto se tornou verdade para os cristãos desde o início, logo após a morte, a ressurreição e ascensão de Cristo ao céu. O Espírito Santo derrama magnanimamente dons e carismas sobre toda a Igreja, como testemunham o Evangelho de Marcos e as cartas paulinas. O próprio livro dos Atos dos Apóstolos é uma sinfonia pneumatológica da obra do Espírito na vida da Igreja primitiva, que continuará nos séculos seguintes, em que, espantado, testemunharemos o nascimento de presentes inesperados: o martírio, a santidade dos anacoretas, a doutrina dos grandes médicos, caridade eclesial, vida sacramental e orante; eles revelam a assinatura do Espírito Santo como um mestre interior em todos os lugares. A Quaresma é uma viagem na companhia do Espírito Santo, é a realização daquele sonho de se tornar semelhante a Deus, obtido não através da desobediência e do pecado, quanto aos ancestrais, mas na mediação de Cristo: Ele é o único que pode levar o homem ao Pai.

Sanluri, 16 abril 2025

 

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1 responder
  1. Lydia2005
    Lydia2005 diz:

    Muito bom todos vocês que escrevem e muito parecidos na clareza de suas explicações das Escrituras. Realmente muito apreciável. Completo e cheio de referências que são muito bem-vindas para eu entender e me aprofundar. Obrigado, .e uma feliz páscoa sincera e carinhosa. ❤️

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